· Mayara Moreira de Deus · 3 min read
Mitos sobre a cirurgia de adenóide e amígdalas

Toda família que recebe a indicação de cirurgia ouve, em pouco tempo, uma série de opiniões. Vem da avó, da tia, da vizinha, do grupo do WhatsApp. Muitas dessas falas vêm carregadas de afeto, mas algumas atrapalham na hora de decidir. Vou esclarecer aqui as ideias que mais aparecem no consultório.
”Vai ficar sem defesa”
Esse é, de longe, o mito que mais escuto. A explicação curta: não, não vai.
As amígdalas e a adenóide fazem parte de um sistema imunológico muito maior, que inclui tecido linfoide espalhado por todo o organismo. Em crianças com indicação cirúrgica, esses tecidos já estão funcionando mal — infectando, obstruindo, atrapalhando. Retirá-los não enfraquece a defesa. Em muitos casos a criança até adoece menos depois, porque deixa de ter um foco crônico de infecção.
”Ela nunca mais vai ter dor de garganta”
Essa eu prefiro orientar já no consultório. A criança vai ter, sim, faringites virais ao longo da vida, porque a garganta inteira pode inflamar, não só a amígdala. O que muda é a frequência, a gravidade e o uso de antibiótico. Crianças que tinham 7 amigdalites por ano costumam passar a ter, no máximo, 1 ou 2 faringites leves depois da cirurgia. A diferença é real, mas não é zero.
”A voz vai mudar”
Não vai. A voz é produzida nas pregas vocais, que ficam bem abaixo das amígdalas. O que pode acontecer, e por poucos dias, é uma alteração leve no timbre por causa do inchaço local. Em pouco tempo volta ao normal.
”Vai engordar depois da cirurgia”
Essa eu acho a mais interessante. Algumas crianças, sim, ganham peso depois da cirurgia, mas geralmente é um ganho positivo. A criança que dormia mal e respirava com dificuldade gastava muita energia só para atravessar a noite. Quando passa a dormir direito, o metabolismo regula, o apetite melhora e o crescimento volta ao trilho. Não é “engordar”, é recuperar o que faltava.
”Adenóide cresce de novo”
É raro. Pode acontecer em casos muito específicos, geralmente em crianças operadas muito pequenas, antes dos 3 anos, e mesmo assim só em uma parte delas. Eu acompanho isso nas consultas de seguimento. Se a criança volta a apresentar sintomas de obstrução, a gente investiga.
”Tem que esperar até uma idade certa”
Não existe idade mágica. Existe quadro clínico. Se uma criança de 2 anos tem apneia grave com adenoide bloqueando a via aérea, esperar até os 4 não ajuda — ao contrário, atrapalha o crescimento e o desenvolvimento. Se uma criança de 8 anos tem amigdalite uma vez por ano, talvez não seja hora de operar. Cada caso é olhado de perto.
E quando uma opinião vem de alguém da família?
Eu entendo. A intenção é boa, vem do cuidado. Mas a decisão precisa ser tomada com base no quadro do seu filho, não no que aconteceu com um primo há 20 anos. A medicina mudou muito. As técnicas mudaram, a anestesia mudou, os critérios de indicação mudaram.
Se você está em dúvida depois de uma conversa em família, traz a dúvida para a consulta. A gente conversa de novo, com calma.
Qualquer dúvida, me chama.



