· Mayara Moreira de Deus · 3 min read

"Meu filho vive resfriado" — o que fazer?

"Meu filho vive resfriado" — o que fazer?

Essa é, provavelmente, a queixa que mais aparece no meu consultório. Pais chegam preocupados, alguns já com uma lista mental de antibióticos usados nos últimos meses, achando que a criança tem imunidade baixa ou que “pega tudo o que passa”.

Antes de qualquer coisa, uma boa notícia: é raro ser um problema de imunidade. Mas isso não quer dizer que não haja o que investigar.

Quantas gripes por ano é “normal”?

Criança pequena, principalmente até os 3 ou 4 anos, tem em média 6 a 10 episódios de infecção respiratória por ano. Se ela frequenta creche, pode chegar a 12. Parece muito, mas é esperado — o sistema imunológico está aprendendo com cada contato.

Esses episódios costumam durar cerca de 7 a 10 dias, e a criança fica bem entre um e outro. Esse é o ponto-chave. Fica bem entre um e outro.

Quando a criança nunca fica realmente bem — o nariz nunca desentope, o pigarro nunca some, o sono nunca fica tranquilo — não é resfriado atrás de resfriado. É outra coisa.

Sinais de que não é só virose

Alguns sinais me chamam atenção para investigar outras causas:

Coriza que dura mais de 10 dias sem sinal de melhora Secreção nasal amarelada ou esverdeada por semanas Nariz sempre entupido, mesmo sem “estar gripado” Respiração pela boca constante, principalmente durante o sono Ronco frequente Espirros em salva ao acordar Coceira no nariz e nos olhos Otites de repetição associadas Tosse noturna que aparece toda vez que a criança deita

Se você marca três ou mais desses itens, a hipótese de “só virose” começa a ficar fraca.

As causas mais comuns quando não é só virose

Na prática do consultório, três culpados aparecem com muita frequência.

  1. Rinite alérgica — o mais comum de todos. A criança tem uma inflamação contínua do nariz reagindo a poeira, ácaros ou outros alérgenos. Cada quadro parece um resfriado, mas na verdade é uma alergia mascarada.

  2. Adenoide aumentada — a adenoide é um tecido que fica atrás do nariz e, quando cresce demais, obstrui a passagem do ar. A criança respira pela boca, ronca, e vive com o nariz “pesado”, mesmo sem infecção ativa.

  3. Rinossinusite — quando a inflamação atinge os seios da face. Costuma vir com secreção espessa, dor no rosto ou na testa, e tosse persistente que piora à noite.

Existem outras causas, mas essas três respondem pela grande maioria dos casos.

O que dá para fazer em casa?

Antes mesmo de vir ao consultório, algumas medidas costumam ajudar bastante:

Lavagem nasal com soro fisiológico todos os dias, mesmo sem sintoma agudo. Remove partículas e alérgenos da mucosa. Reduzir poeira e ácaros — capa antiácaro no colchão e travesseiro, evitar carpetes e cortinas pesadas no quarto, lavar roupa de cama semanalmente com água quente. Cuidado com os bichinhos de pelúcia — deixe poucos na cama, lave com frequência, e coloque no congelador por 24h a cada 15 dias para matar ácaros. Casa arejada durante o dia. Ambiente fechado piora rinite. Evitar exposição a fumaça de cigarro, inclusive o resíduo que fica em roupas de quem fumou.

Essas medidas, isoladamente, já melhoram muitos casos.

Quando procurar o otorrino pediatra?

Se as medidas em casa não resolvem em 3 ou 4 semanas, ou se a criança tem os sinais que descrevi ali em cima, é hora de uma avaliação. Na consulta, examino o nariz, a garganta e os ouvidos, e com frequência peço exames complementares como imagem da adenoide ou avaliação alérgica.

O objetivo não é medicar por medicar. É entender por que aquele nariz não funciona bem, e tratar a causa.

Criança que respira bem, dorme melhor. Dorme melhor, cresce melhor, aprende melhor. É um efeito cascata, e começa pelo diagnóstico correto.

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