· Mayara Moreira de Deus · 6 min read
"Meu Filho Vive Doente Desde Que Entrou na Creche" — É Normal?

A matrícula saiu, a adaptação foi até tranquila — e aí começou. Resfriado na segunda semana. Mal melhorou, veio febre. Depois tosse, depois dor de ouvido. Em três meses, a criança tomou antibiótico duas vezes, os pais queimaram todas as folgas do trabalho e alguém já disse a frase inevitável: “esse menino tem imunidade baixa”.
Essa é uma das queixas mais frequentes em consultório de otorrinolaringologia pediátrica. E a resposta costuma aliviar bastante: na maior parte das vezes, é esperado.
Mas existe um limite. Há um ponto em que a repetição deixa de ser parte do processo e passa a indicar algo que precisa ser investigado. Saber identificar esse ponto é o objetivo deste texto.
Quantas infecções por ano são normais?
O número surpreende quase todas as famílias: uma criança pequena e saudável pode ter, em média, de 6 a 12 infecções respiratórias por ano — e, no primeiro ano de creche, é comum ficar na faixa alta.
Fazendo a conta: se cada quadro dura de 7 a 10 dias e eles se concentram nos meses mais frios e secos, a sensação é mesmo de uma criança doente o tempo todo. Em Goiânia, com a estiagem prolongada entre maio e setembro, essa percepção fica ainda mais forte.
Então não, geralmente não é “imunidade baixa”. É o sistema imunológico fazendo exatamente aquilo para que foi feito: aprendendo.
Por que a creche aumenta tanto os episódios?
Três fatores se somam:
Exposição concentrada. Existem centenas de vírus respiratórios diferentes. Em casa, a criança encontra poucos; na creche, encontra muitos de uma vez — e cada um deles rende um episódio até que a memória imunológica se forme.
Contato intenso. Crianças pequenas dividem brinquedos, levam tudo à boca, espirram perto umas das outras e ainda não sabem higienizar as mãos sozinhas.
Imunidade em construção. O sistema imunológico amadurece ao longo dos primeiros anos. Aos poucos, os episódios ficam mais curtos e mais leves.
A boa notícia: esse “pedágio” é antecipado, não extra. Estudos mostram que crianças que entram cedo na creche adoecem mais nos primeiros anos e menos nos anos escolares seguintes. O total tende a se equilibrar.
Quando passa a ser sinal de alerta?
O número de resfriados, sozinho, diz pouco. O que importa é o padrão. Procure avaliação se houver:
Infecções que não se resolvem — o quadro melhora e volta em poucos dias, sem intervalo de criança bem; Uso frequente de antibiótico — mais de três ou quatro cursos em um ano; Otites de repetição — três episódios em seis meses ou quatro em um ano; Amigdalites bacterianas repetidas, com febre e placas; Sinusites frequentes, ou secreção nasal espessa por mais de 10 a 14 dias; Nariz entupido mesmo fora das infecções — a criança respira pela boca o tempo todo; Ronco quase todas as noites, com sono agitado ou pausas respiratórias; Suspeita de perda auditiva — pede para repetir, aumenta o volume da TV, parece distraída; Atraso na fala ou perda de marcos já alcançados; Baixo ganho de peso e altura; Quadros graves, como pneumonia de repetição ou internações.
Quando um ou mais desses sinais aparece, o problema deixou de ser só a exposição da creche.
O que costuma estar por trás da repetição?
Adenoide aumentada. A causa mais frequente. Obstrui a saída do nariz e bloqueia a tuba auditiva, criando um ambiente parado onde a secreção se acumula — o cenário perfeito para otites e sinusites de repetição.
Rinite alérgica não controlada. Mantém a mucosa nasal inflamada e inchada o tempo todo. A criança “vive resfriada” sem necessariamente ter um vírus novo a cada semana. Poeira, ácaros, mofo e o ar seco de Goiânia agravam bastante.
Amígdalas aumentadas ou cronicamente infectadas.
Líquido parado no ouvido médio (otite secretora), que pode durar meses sem dor nenhuma — e abafar a audição justo na fase do aprendizado da fala.
Fatores do ambiente. Fumaça de cigarro em casa é um dos mais subestimados e dos mais impactantes.
Vale uma ressalva importante: imunodeficiências verdadeiras existem, mas são raras. Elas costumam se manifestar com quadros graves, internações e infecções fora do padrão — não com resfriados frequentes em criança que, no mais, cresce e se desenvolve bem.
Como é a avaliação com a otorrino pediatra?
A consulta busca separar o que é maturação imunológica do que é obstrução ou inflamação crônica:
História detalhada — número e tipo de episódios, antibióticos usados, como a criança dorme e respira entre as infecções, histórico de alergia na família. Exame completo de ouvidos, nariz e garganta. Nasofibroscopia, quando indicada, para medir objetivamente o tamanho da adenoide. Avaliação auditiva — audiometria e imitanciometria, que detectam líquido no ouvido mesmo sem sintomas. Investigação de alergia, quando o quadro sugere. Plano individual, que pode ser apenas clínico, com ou sem encaminhamento a outras especialidades.
Na maioria dos casos, o que a família recebe é tranquilidade — e um plano para reduzir a frequência dos episódios.
O que realmente ajuda a reduzir os episódios?
Vacinação em dia, incluindo influenza anual e pneumocócica; Lavagem nasal com soro fisiológico, especialmente nos meses secos — simples, barata e eficaz; Controle da rinite alérgica de forma contínua, não só nas crises; Casa livre de fumaça de cigarro; Redução de ácaros e mofo no quarto: capa no colchão, menos bichos de pelúcia, roupa de cama lavada com frequência; Umidificação do ambiente durante a estiagem, ou uma bacia com água no quarto; Higiene das mãos em casa, na volta da creche; Sono adequado e boa alimentação — fundamentais e frequentemente negligenciados na correria.
O que não funciona: antibiótico a cada resfriado (a maioria é viral), “fortificantes” sem indicação e suplementos vendidos como reforço de imunidade sem comprovação.
Perguntas frequentes
Devo tirar meu filho da creche? Na maioria dos casos, não. Os episódios tendem a diminuir ao longo do primeiro ano de convivência, e a socialização traz ganhos importantes. A exceção fica para quadros graves e repetidos, discutidos individualmente.
Isso é imunidade baixa? Quase nunca. Imunodeficiência real cursa com infecções graves, internações e falha de crescimento — não com resfriados frequentes em criança que se desenvolve bem.
Quando melhora? Em geral há queda visível depois do primeiro ano de creche, e mais ainda a partir dos 4 ou 5 anos, com o amadurecimento imunológico e a redução natural da adenoide.
Meu filho toma antibiótico quase todo mês. Isso preocupa? Sim, merece investigação — tanto pela possibilidade de uma causa estrutural quanto pelo risco de resistência bacteriana. Muitos quadros tratados como bacterianos são, na verdade, virais.
Pediatra ou otorrino? O pediatra conduz muito bem os episódios isolados. O otorrinolaringologista pediátriaco entra quando há repetição, obstrução nasal persistente, otites frequentes, ronco ou suspeita de perda auditiva.
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Se o seu filho entrou na creche e não saiu mais do ciclo de resfriados, otites e antibióticos, vale investigar se existe algo mantendo essa porta aberta.
Dra. Mayara Moreira de Deus — otorrinolaringologista pediátrica em Goiânia. Avaliação completa de nariz, ouvidos, garganta e audição, com conduta explicada com clareza — e sem indicar tratamento ou cirurgia que a criança não precise.
Agende sua consulta.
Conteúdo de caráter informativo. O diagnóstico e o tratamento dependem de avaliação médica individual.



